Monday, February 2, 2009

O problema dos ouvidos de Beethoven


"Por alturas da viragem do século XVIII para o século XIX vivia em Viena um músico chamado Beethoven. O povo gozava com ele, já que tinha as suas manias, para além de uma baixa estatura e uma cabeça esquisita. Os cidadãos ficavam escandalizados com as suas composições, pois, diziam eles: "Que pena, o homem tem um problema nos ouvidos." O seu cérebro magicava dissonâncias horríveis. Mas ele afirmava que se tratava de maravilhosas harmonias, e uma vez que os nosso ouvidos são, obviamente, saudáveis, o problema só podia estar nos ouvidos dele. Que pena!

A nobreza, porém, que graças aos direitos que lhe tinham sido conferidos também tinha obrigações, deu-lhe dinheiro necessário para ele poder realizar as suas obras. A nobreza também tinha o poder de levar uma obra de Beethoven à ópera da Corte. No entanto, os cidadãos que preenchiam a sala apuparam a obra de tal maneira que foi impossível pensar numa segunda exibição.

Passaram-se 100 anos e os cidadãos escutam, encantados, as obras do tal músico louco e enfermo. Será que se tornaram nobres, tal como os nobres de 1814, e será que ganharam respeito pela vontade do génio? Não, ficaram foi todos doentes.
Têm todos a doença dos ouvidos de Beethoven. O seus ouvidos foram maltratados durante um século pelas dissonâncias do Santo Ludwig - não foram capazes de suportar isso. Todos os detalhes anatómicos, todos os ossículos, circunvoluções, tímpanos e trompas assumiram as formas adoentadas que os ouvidos de Beethoven também apresentavam. E a cara esquisita atrás da qual corriam os rapazes da rua, fazendo troça, tornou-se para o povo o rosto espiritual do mundo inteiro.

É o espírito que faz o corpo."


Ornamento e delito - Adolf Loos, escrito em 1913